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O andar de baixo do canteiro

Em Bridgerton ninguém falta. Na construção civil, que contrata como nunca, falta gente. O que ela fez com quem constrói?

Por Jéssica BarrettoColuna Desvios17 de outubro de 20264 min de leitura
Operário de estrutura metálica sentado numa viga durante a construção do Empire State Building, com Nova York e o edifício Chrysler ao fundo, fotografia de Lewis Hine
Operário montando estrutura de aço no Empire State Building, Nova York, 1930 | Lewis Hine (Imagem: Wikimedia Commons, domínio público)

Em Bridgerton, o andar de baixo existe para que o andar de cima funcione. A criadagem aparece, serve e some. Ninguém falta, ninguém atrasa, ninguém inventa um dentista.

Aqui cabe uma ressalva que a série não faz: a história se passa na Regência, nos anos 1810, e a chamada crise dos criados só aconteceu um século depois. A série mostra o serviço doméstico como cenário obediente. O que a história registra é o contrário.

Escrevo isto de dentro de uma obra. Numa reforma recente, com prazo apertado, um profissional avisou que viria. Não veio. Inventou uma consulta no dentista e não veio no dia seguinte também. Numa obra anterior, um prestador sumiu com R$ 30 mil. Seria desonesto dizer que mau-caratismo não existe. Existe, em todo ofício. Mas quando converso com outros arquitetos, a queixa é a mesma, com outras palavras. Um problema que se repete assim deixa de ser caso e vira estrutura.

A crise dos patrões

O “servant problem” britânico, como se chamou o fenômeno entre o fim do século XIX e o início do XX, tem um enredo familiar. A classe média crescia e queria criados. Quem poderia servir encontrava trabalho menos pesado ou mais bem pago. A guerra acelerou tudo: homens foram para o exército, mulheres para as fábricas de munição, e o número de criados domésticos caiu de 1,66 milhão para 1,26 milhão durante o conflito.

Um texto de 1919 publicado na imprensa britânica registra a queixa das patroas e, de passagem, a pauta de quem servia: jornada fixa, folgas, salário maior. A historiadora Laura Schwartz argumenta que quem reclamava da desobediência dos criados não imaginava o problema inteiro. Havia desobediência, sim. Era a reação de quem, pela primeira vez, tinha alternativa.

O que os números dizem

Segundo a CBIC, nove em cada dez construtoras têm dificuldade de recrutar profissionais qualificados. O custo da mão de obra subiu perto de 70% em uma década, segundo o SINAPI. O primeiro trimestre de 2026 teve mais de 120 mil empregos formais criados no setor, que passou de 3 milhões de trabalhadores com carteira. Ou seja: a construção contrata como nunca e mesmo assim falta gente.

A explicação da própria CBIC é demográfica: o trabalhador envelhece e a reposição não acompanha as aposentadorias, mesmo com salários competitivos. O FGV IBRE completa o raciocínio: não é só que o filho do pedreiro não queira o ofício, é que o pedreiro tem cada vez menos filhos, e a maior escolaridade reduz a oferta de jovens para essas vagas.

Esses números têm um limite que convém dizer: medem sobretudo o setor formal e as construtoras. O que vivo nas reformas, o mercado de pequenas equipes e prestadores avulsos, não aparece em estatística confiável. Falo, portanto, a partir da prática.

O que a escassez faz com a confiabilidade

Minha leitura, que os dados não provam mas tornam plausível: quando falta profissional, o bom profissional é disputado. Quem é disputado aceita três obras e entrega uma. A falta de gente produz, na ponta, exatamente a falta de palavra que me tira o sono. O dentista inventado é sintoma de um mercado em que quem executa sabe que não será substituído.

A conta chegando

O setor chama isso de escassez. Prefiro chamar de desenho. No mundo, a construção cresceu em produtividade cerca de 1% ao ano nas últimas duas décadas, segundo a McKinsey. No Brasil, o setor sustenta a produção sobre o corpo de quem trabalha: ofício duro, informalidade, pouca carreira, nenhuma escada visível entre servente e mestre de obras. A própria CBIC diz querer resgatar a atratividade do setor, e ao mesmo tempo qualifica de açodada a discussão sobre reduzir a jornada e acabar com a escala 6x1. Dá para querer atrair jovens sem mexer na jornada? A pergunta é do setor, não minha.

Onde o arquiteto entra

Reclamamos do canteiro na mesma linguagem das patroas de 1919. Mas projetamos o canteiro. Detalhamos o suficiente para que alguém execute sem improvisar? Aceitamos prazos que ninguém cumpriria? Pagamos o que custa um profissional bom ou só dizemos que ele “não existe mais”? Tenho a convicção de que parte da crise passa por mesas como a minha.

Os criados de Bridgerton nunca faltam porque a ficção precisa deles disponíveis. Na vida real, o andar de baixo tem agenda, tem alternativa e tem memória. Resta saber quem forma o próximo mestre de obras, e quem aceita pagar o que isso custa.