Inhotim: quem decidiu unir trilha, natureza, arte e arquitetura?
- Jéssica Barretto

- 13 de mai.
- 2 min de leitura
O maior museu a céu aberto da América Latina e o que ele escolhe

Há um momento em Inhotim que é difícil de descrever para quem não viveu. Você está andando por uma trilha, a mata fecha dos dois lados, o calor úmido de Minas Gerais no corpo e então aparece um pavilhão. Ou uma escultura no meio de um lago. Ou uma galeria suspensa sobre a vegetação. A transição entre natureza e arte acontece sem aviso, sem placa de boas-vindas, sem o protocolo frio do museu convencional. Isso é o que Inhotim acerta de forma rara: a experiência começa antes da obra.
O Instituto fica em Brumadinho, a 60 quilômetros de Belo Horizonte, e ocupa mais de cem hectares que combinam parque botânico e acervo de arte contemporânea em escala difícil de absorver numa única visita. Foram mais de duas décadas de construção de uma coleção que inclui obras de Hélio Oiticica, Cildo Meireles, Tunga, Matthew Barney, Doris Salcedo e Yayoi Kusama. Parte delas criadas especificamente para aquele espaço, aquela luz, aquela topografia. É esse vínculo entre obra e lugar que diferencia Inhotim de qualquer museu de arte contemporânea do país.
A experiência começa antes da obra. E isso é o que Inhotim acerta de forma rara.
Há obras que ficam. No Pavilhão Yayoi Kusama, a instalação Aftermath of Obliteration of Eternity (2009) é uma sala de espelhos e lanternas douradas que se multiplicam ao infinito — inspirada na cerimônia budista Tōrō Nagashi, de homenagem aos ancestrais. Três minutos dentro daquele espaço podem parecer uma eternidade no bom sentido: a sensação é de suspensão, de estar num lugar que não obedece às leis normais do espaço. Quem sai de lá sem se sentir tocado provavelmente não estava prestando atenção.
Mas Inhotim também tem seu preço, literal. O ingresso não é barato, o acesso a partir de BH exige planejamento, e a estrutura do lugar constrói um público específico antes mesmo de abrir os portões. Há iniciativas de gratuidade às quartas-feiras, programas educativos para comunidades da região — e eles importam. Mas operam na margem de uma experiência que, na maioria dos dias, é destinada a quem pode pagar e se organizar para uma excursão de dia inteiro. Isso não invalida o que Inhotim é. Mas é uma pergunta que o instituto ainda deve ao seu entorno.
Veredicto
Inhotim supera expectativas — e expectativas sobre Inhotim costumam já ser altas. A combinação de acervo, paisagem e arquitetura cria algo que não existe em outro lugar no Brasil. Vale o deslocamento, vale o ingresso, vale voltar. A contradição entre a grandiosidade do projeto e a restrição de acesso permanece em aberto — e talvez seja justamente essa tensão que faça de Inhotim um lugar tão difícil de ignorar, para o bem e para o incômodo.


