Niemeyer, se eu te encontrasse, eu perguntaria sobre o calor
- Jéssica Barretto

- 13 de mai.
- 2 min de leitura
Atualizado: há 4 dias
O conforto térmico como questão política e o que a arquitetura icônica brasileira prefere não responder

Existe uma pergunta que nenhum admirador de Oscar Niemeyer faz em voz alta, talvez por educação, talvez por reverência, talvez porque a beleza das curvas desvia o assunto com eficiência: está quente aqui dentro, ou é impressão minha?
Não é impressão. A Igreja de São Francisco de Assis, na Pampulha, tem uma das coberturas mais fotografadas da arquitetura moderna brasileira e uma acústica interessante e uma relação com a luz natural que Portinari soube explorar nos azulejos externos. O que ela não tem, com a mesma generosidade, é ventilação. O mesmo pode ser dito de boa parte do repertório niemeyriano: o Congresso Nacional, o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, os pavilhões de Brasília. Formas extraordinárias. Interiores que, em boa parte do ano, dependem de ar-condicionado para serem habitáveis.
Isso não é acidente. É escolha, ou, mais precisamente, é a consequência de uma hierarquia em que a forma plástica vem antes do desempenho ambiental. No contexto do modernismo brasileiro dos anos 1940 e 1950, essa hierarquia tinha justificativas históricas e o ar-condicionado era visto como solução técnica disponível. O problema é que essa lógica nunca foi revisada publicamente. Virou herança naturalizada, replicada por gerações de arquitetos que aprenderam a venerar a forma antes de perguntar se o usuário vai suar.
No Brasil de hoje, onde as cidades enfrentam ilhas de calor crescentes e a crise climática torna o conforto térmico uma questão de saúde pública — e não de luxo —, continuar tratando o legado de Niemeyer como intocável tem um custo.
Não se trata de demolir nada, nem de negar a grandeza do que foi construído. Trata-se de reconhecer que veneração acrítica impede aprendizado, e que o campo da arquitetura brasileira ainda tem dificuldade de dizer, sobre seus maiores nomes: foi lindo, e tinha um problema sério.
A conversa que nunca aconteceu com Niemeyer sobre o calor, sobre quem fica dentro dos edifícios quando o sol bate forte, sobre o que as formas livres custam em BTUs por hora, é a conversa que o campo precisa ter consigo mesmo. Com ou sem o arquiteto presente.
A beleza não aquece no inverno nem refresca no verão. É hora de a crítica arquitetônica brasileira parar de fingir que isso é detalhe.
Como citar: BARRETTO, Jéssica. Niemeyer, se eu te encontrasse, eu perguntaria sobre o calor. SAA Revista, 2026. Disponível em: https://www.saarevista.com.br/post/niemeyer-se-eu-te-encontrasse-eu-perguntaria-sobre-o-calor. Acesso em: (data).

Jéssica Barretto é Arquiteta e Urbanista, head criativo e executivo do JBARQ+ Arquitetos. Fundadora da S.A.A Revista, onde atua como Publisher, Editora -chefe e Colunista. Em seu tempo livre você pode encontrá-la em alguma prainha erma ou apreciando um chá em meio à natureza. Ou dançando.




