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LEIA, PENSE E QUESTIONE

arquitetura, arte e suas implicações na sociedade

PRINCIPOTE: QUANDO O LUXO ENCENA HIERARQUIAS


A arquitetura nunca é neutra. Tampouco o design de interiores, a curadoria musical ou a organização dos corpos em um espaço de hospitalidade. Restaurantes de alto padrão operam como dispositivos culturais: mais do que servir comida, produzem narrativas sobre pertencimento, distinção e poder.


É nesse contexto que se insere o restaurante Principote, em Salvador, um espaço visualmente sofisticado, inspirado em referências mediterrâneas, mas que revela, ao olhar atento, uma estrutura social profundamente assimétrica.

Há espaços que encantam de imediato. A luz bem calculada, as texturas naturais, o repertório estético reconhecível e confortável. Tudo parece funcionar como deveria. Ainda assim, algo desloca. Um incômodo sutil, difícil de nomear num primeiro momento, mas persistente. A arquitetura, nesses casos, cumpre seu papel formal, mas falha em produzir pertencimento ético.

O restaurante Principote, em Salvador, se apresenta como um desses espaços. Visualmente sofisticado, ancorado em referências mediterrâneas, ele se inscreve no imaginário contemporâneo do luxo tropical. No entanto, ao se permitir um olhar mais atento, menos deslumbrado e mais analítico, o espaço passa a revelar não apenas escolhas estéticas, mas estruturas.


Imagem: site oficial Principote
Imagem: site oficial Principote

O termo “principote”, na língua portuguesa, longe de designar nobreza consolidada, opera socialmente como ironia. Ele se refere àquele que encena riqueza e centralidade sem lastro simbólico real. Uma figura aspiracional, dependente da aparência e da validação externa. No campo do luxo contemporâneo, essa lógica se manifesta na adoção de códigos estéticos importados, na elevação artificial de preços e na substituição da excelência pela performance.

O nome, nesse sentido, deixa de ser mero rótulo e passa a funcionar como síntese involuntária do projeto: um luxo que se anuncia como nobre, mas se sustenta na necessidade constante de parecer.


A arquitetura acompanha esse gesto. O ambiente mobiliza uma estética globalizada do luxo, apropriando-se de referências culturais específicas e transformando-as em cenário. Madeira, tons claros, vegetação cuidadosamente disposta, iluminação cênica. Tudo sugere deslocamento geográfico e suspensão da realidade local. Não se está em Salvador; e sim em uma ideia abstrata de paraíso estético.

Esse tipo de operação não é nova. Trata-se de um luxo que se constrói pela descontextualização, pela neutralização do entorno e pela promessa de experiência. No entanto, é justamente nesse contraste entre estética importada e território real que as fissuras aparecem.


Ao observar quem ocupa o espaço, e de que maneira, o ensaio se desloca da forma para a estrutura. Os corpos que servem e os corpos que assinam, criam e comandam. Essa distribuição, longe de ser um detalhe, constitui a espinha dorsal da experiência.

Não se trata de acusar intenções individuais, mas de reconhecer padrões. O espaço organiza o trabalho de forma racialmente legível, ainda que não verbalizada. A arquitetura, nesse sentido, atua como coreografia social: define trajetórias, posições, visibilidades. Alguns corpos circulam como função; outros como autoria.


A comida, correta e sem grande complexidade, não sustenta sozinha o valor cobrado. O que justifica o preço é a experiência simbólica. E essa experiência se ancora menos na excelência técnica e mais na sensação de pertencimento a um circuito específico de consumo. O cliente não paga apenas pelo prato, mas pela narrativa de exclusividade que o envolve.

É nesse ponto que o desconforto se instala. Porque a narrativa do luxo, quando sustentada por hierarquias silenciosas, revela sua fragilidade. O desconforto experimentado no espaço não é subjetivo ou exagerado. Ele emerge de uma leitura espacial coerente, onde nome, estética e organização humana constroem uma narrativa silenciosa, porém inequívoca. O “príncipe” do qual o nome sugere não está no calor da cozinha nem no desgaste do atendimento. O espaço, então, passa a ser revelador.


Principote é um restaurante bem desenhado. Mas a arquitetura, quando lida apenas por sua superfície, perde sua dimensão mais potente: a capacidade de expor como organizamos o mundo. Neste caso, o que se revela é um luxo que ainda depende de estruturas desiguais para operar com conforto.


Em uma cidade como Salvador, marcada por uma história profunda de violência colonial e, ao mesmo tempo, por uma produção cultural negra de enorme sofisticação, esse tipo de arranjo não é neutro.




Referências conceituais

– ALMEIDA, Silvio. Racismo Estrutural. São Paulo: Sueli Carneiro; Pólen, 2019.– BOURDIEU, Pierre. A Distinção: crítica social do julgamento. São Paulo: Edusp, 2007.– BHABHA, Homi K. O Local da Cultura. Belo Horizonte: UFMG, 1998.– LEFEBVRE, Henri. A Produção do Espaço. Oxford: Blackwell, 1991.– MBEMBE, Achille. Crítica da Razão Negra. São Paulo: N-1 Edições, 2018.– COLOMINA, Beatriz. Privacy and Publicity: Modern Architecture as Mass Media. MIT Press, 1994.

 

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