MEMÓRIA HISTÓRICA, ÉTICA SIMBÓLICA E OS LIMITES DO REBRANDING SUPERFICIAL: O caso do restaurante Senzala, hoje Senzzi
- Jéssica Barretto

- há 2 dias
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A recente mudança de nome do restaurante tradicionalmente conhecido como Senzala, hoje rebatizado como Senzzi, suscita um debate que ultrapassa o campo do marketing e adentra questões centrais de memória histórica, ética simbólica e responsabilidade cultural. O curto intervalo temporal desde o rebranding, torna metodologicamente insustentável qualquer tentativa de dissociação plena entre a nova marca e o passado que a precede. O nome anterior não constitui um detalhe acidental, mas um elemento estruturante da identidade do estabelecimento ao longo de décadas.
O problema central não é apenas o nome que foi abandonado, mas a forma como ele foi abandonado. O rebranding do Senzala para Senzzi não veio acompanhado de posicionamento público, de explicação histórica, de reconhecimento simbólico ou de qualquer gesto que indique reflexão crítica. A troca ocorreu de maneira silenciosa, quase envergonhada, como quem espera que o tempo resolva aquilo que exigiria responsabilidade institucional.

Durante anos, o restaurante operou, faturou e construiu reputação sob um nome que carrega um dos símbolos mais violentos da história brasileira. A senzala não é metáfora neutra, não é folclore, não é estética rústica. É espaço de dor, coerção, exploração e apagamento. Usá-la como marca de um lugar de lazer e consumo revela, no mínimo, insensibilidade histórica; no máximo, banalização de um trauma coletivo.
Não se trata de exigir, de maneira anacrônica, uma consciência histórica que talvez não estivesse presente no momento da fundação do estabelecimento. Trata-se, sim, de avaliar a responsabilidade ética de manter — ou tentar apagar — símbolos à luz do presente. Símbolos não apenas recordam o passado; eles educam o presente, moldam percepções e normalizam narrativas.
O restaurante hoje chamado Senzzi tenta se apresentar como uma marca renovada, alinhada ao tempo presente e às sensibilidades contemporâneas. No entanto, essa tentativa esbarra em um fato incontornável: por décadas, o estabelecimento se chamou 'Senzala'. Não se trata de um detalhe periférico nem de uma curiosidade histórica irrelevante. Trata-se de um nome profundamente ligado à escravidão, à violência racial e à desumanização sistemática de pessoas negras no Brasil. E a mudança é recente demais — menos de seis meses — para que se tente apagar esse passado como se ele não tivesse existido.
No contexto brasileiro, o termo “senzala” designa um espaço histórico específico: local de confinamento, exploração sistemática e desumanização de pessoas escravizadas. Trata-se de um símbolo carregado de violência estrutural, racial e econômica, amplamente documentado pela historiografia e pela sociologia brasileira. Sua utilização como marca comercial para um espaço de lazer e consumo revela uma dissonância ética evidente entre significante e significado, expondo uma naturalização histórica da dor negra no imaginário social.
Sob a perspectiva dos estudos de memória, a permanência prolongada desse nome indica não apenas descuido semântico, mas a reprodução de uma lógica de apagamento simbólico. Ao longo de anos, o restaurante operou, construiu capital econômico e consolidou reputação sob um signo historicamente violento, sem qualquer indício de problematização pública. A posterior substituição do nome, realizada de forma silenciosa e sem posicionamento institucional explícito, reforça a hipótese de que o rebranding não decorre de um processo reflexivo profundo, mas de uma adaptação reativa a um ambiente social progressivamente mais crítico.
Do ponto de vista teórico, o rebranding pode ser compreendido como um mecanismo de reconstrução simbólica de identidade organizacional. No entanto, para que esse processo seja legítimo, ele deve envolver três dimensões fundamentais: reconhecimento do erro histórico, elaboração discursiva transparente e transformação efetiva dos valores comunicados pela marca. No caso do Senzala/Senzzi, nenhuma dessas dimensões se manifesta de forma clara. A mudança restringe-se à forma, não ao conteúdo; à superfície, não à estrutura.
A experiência oferecida pelo restaurante não sustenta a ideia de renovação. O ambiente, o serviço e o cardápio permanecem presos a uma lógica antiga: correto, genérico, caro para o que entrega e sustentado mais pela tradição do endereço do que por excelência real. A troca de nome não foi acompanhada por uma transformação conceitual consistente. O que muda é o rótulo, não o conteúdo.
A ética simbólica exige mais do que substituições nominais. Exige reconhecimento, posicionamento e responsabilidade. Quando um estabelecimento lucra por anos ancorado em um símbolo de opressão, a mudança posterior não pode se limitar a uma operação cosmética. O apagamento simbólico não é reparação; é, muitas vezes, a recusa em enfrentar o próprio passado.
O caso Senzzi evidencia uma dificuldade estrutural da sociedade brasileira em lidar com sua herança escravocrata de maneira madura. Em vez de elaborar criticamente essa memória, opta-se frequentemente por suavizá-la, ocultá-la ou neutralizá-la sob discursos de modernização e inovação. Essa estratégia, porém, não resiste a uma análise minimamente atenta.
Não se trata de inviabilizar negócios, demonizar empreendedores ou interditar transformações. Trata-se de compreender que marcas não existem no vazio: elas operam dentro de um tecido social marcado por desigualdades históricas profundas. Ignorar isso não é neutralidade — é tomada de posição.
O rebranding do antigo Senzala, ao não enfrentar de forma clara e pública o peso simbólico do nome que o precedeu, revela os limites de uma mudança superficial. Mais do que um erro de comunicação, o episódio escancara a dificuldade coletiva de reconhecer que memória, linguagem e poder estão intrinsecamente conectados. No Brasil contemporâneo, ainda preferimos apagar símbolos a elaborar responsabilidades.



