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LEIA, PENSE E QUESTIONE

arquitetura, arte e suas implicações na sociedade

COLUNA

por Jéssica Barretto

Desvios

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Um convite a sair do caminho mais óbvio. Lugares, experiências, arquitetura, comida, cultura e tudo aquilo que vale uma pausa, um olhar mais atento ou um pequeno desvio.

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STUDIO EKENI: Design como palco da identidade


FOTO: FIGUEIREDO, Robson. Studio Ekeni.
FOTO: FIGUEIREDO, Robson. Studio Ekeni.

FICHA TÉCNICA


Projeto: Studio Ekeni

Arquitetura: JBARQ+ Arquitetos

Localização: Perdizes, São Paulo, SP

Ano: 2024

Área: 27m²

Programa: Hospedagem de curta temporada (uso original) / residência (uso atual)

Fotografia: Robson Figueiredo









Vinte e sete metros quadrados é pouco espaço para qualquer programa, e ainda menor quando o programa é hospedagem de temporada, onde cada metro precisa justificar sua existência para um hóspede que nunca esteve ali antes e talvez nunca volte. O Studio Ekeni, em Perdizes, nasceu dentro dessa lógica: um produto para Airbnb, pensado para girar.


A decisão de projeto que distingue o Ekeni de qualquer outro estúdio compacto da região é a galeria. Numa das paredes principais, uma composição de sete molduras reúne reproduções de ukiyo-e do período Edo, entre elas a Grande Onda de Kanagawa e uma vista do Monte Fuji, de Hokusai, um retrato feminino no estilo de Utamaro e uma cena de teatro kabuki. A curadoria das imagens partiu do próprio cliente, de ascendência japonesa, que solicitou especificamente obras dessa linhagem.


"Quando um cliente me procura, não busco apenas atender a uma demanda técnica. Quero criar um ambiente que reflita sua história, que dialogue com sua identidade", diz Jess Barretto, responsável pelo projeto. A frase é o ponto de partida certo para entender o Ekeni, mas também a pergunta que ele deixa em aberto: de qual história estamos falando, e de qual identidade?



FOTO: FIGUEIREDO, Robson. Studio Ekeni.
FOTO: FIGUEIREDO, Robson. Studio Ekeni.

Identidade e experiência


Vale registrar o que se sabe e o que não se sabe sobre essa escolha. Não há, até onde esta cobertura apurou, um vínculo genealógico verificado entre o cliente e as regiões ou os artistas representados. Hokusai e Utamaro trabalharam em Edo, atual Tóquio, entre os séculos XVIII e XIX, e suas obras estão entre as imagens mais reproduzidas e comercializadas da história da arte japonesa, presentes em qualquer coisa, de capas de caderno a embalagens de chá. O que existe, de fato, é uma escolha: o cliente identificou nesse repertório algo que falava sobre quem ele é, e pediu que o espaço o materializasse.

FOTO: FIGUEIREDO, Robson. 
FOTO: FIGUEIREDO, Robson. 
“"Quando um cliente me procura, não busco apenas atender a uma demanda técnica. Quero criar um ambiente que reflita sua história, que dialogue com sua identidade"

Essa distinção importa porque desloca a leitura do projeto. O Ekeni não reconstitui uma memória de família específica. Ele monta, com curadoria deliberada, um vocabulário visual de pertencimento. É uma diferença sutil, mas real: identidade aqui não é arqueologia, é composição. E composição é, em última instância, o que a arquitetura de interiores sempre faz. A questão é se o projeto assume isso ou se o disfarça sob uma linguagem de resgate ancestral que a escolha, por si só, não sustenta.

O restante do projeto segue um partido coerente com essa leitura. Paleta neutra, materiais que não competem com a galeria, iluminação dirigida que trata as molduras como o centro gravitacional do espaço, não como adorno de fundo. Funciona como cenário porque foi pensado como cenário, e isso não é uma crítica. É a constatação de que, num produto de hospedagem, a primeira função da identidade visual é comunicar algo a quem chega, em poucos minutos, sem explicação.



Além do Airbnb


O desfecho do projeto é o dado mais revelador. O cliente decidiu não mais alocá-lo para locação e passou a habitá-lo.


"Ver que o cliente não quer mais sair daqui é, para mim, a maior prova de que um projeto bem concebido vai além do papel e do traço", afirma Jess.


É verdade, mas talvez não da forma como a frase sugere. Um espaço concebido para apresentar uma identidade a estranhos se tornou, para quem o concebeu, um lugar para morar dentro dela. Não se sabe se esse movimento aconteceria com qualquer outro repertório decorativo igualmente bem executado, mas é difícil não notar que, quando a composição de pertencimento funciona o suficiente para convencer visitantes, ela também pode terminar convencendo quem a encomendou.



“Ver que o cliente não quer mais sair daqui é, para mim, a maior prova de que um projeto bem concebido vai além do papel e do traço.”

O Studio Ekeni interessa à S.A.A. menos pelo resultado estético, que é tecnicamente sólido, e mais pelo que ele expõe sobre como identidade cultural circula hoje: como repertório disponível, escolhido, montado, à disposição de quem tem os meios para encomendá-lo. Isso não invalida o gesto do cliente, nem o trabalho do escritório. Mas levanta uma pergunta que vale para muito além de 27 metros quadrados em Perdizes: quando a identidade se torna projeto, o que a separa de cenografia?

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