BRUNO KIM: Arquitetura, poder e os limites do discurso sustentável em São Paulo
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Atualizado: há 2 dias
Uma conversa com Bruno Kim
São Paulo não é apenas uma cidade em constante crescimento — é uma cidade permanentemente negociada. Cada espaço público, cada norma urbanística e cada projeto arquitetônico carrega, de forma explícita ou silenciosa, a marca de disputas políticas, sociais e econômicas. É a partir dessa chave que se desenvolve a conversa com o arquiteto Bruno Kim, cuja reflexão desloca o debate da forma para a estrutura: menos estética, mais poder. Ao ser questionado sobre a evolução dos espaços públicos paulistanos e a construção de uma identidade urbana, Kim rejeita qualquer leitura romantizada da arquitetura. Para ele, o desenho da cidade não é resultado de genialidade individual, mas consequência direta dos acordos sociais que determinam quem tem voz e quem permanece à margem dos processos decisórios.

O Crescimento Urbano e a Identidade Paulistana
S.A.A Revista: Como você vê a evolução dos espaços públicos em São Paulo em termos de design urbano e planejamento inclusivo? Quais elementos locais deveriam ser mais valorizados ou resgatados em novos projetos para fortalecer a identidade da cidade?
Bruno Kim:
A arquitetura e o desenho urbano não surgem de forma autônoma ou neutra. Eles são, antes de tudo, reflexo de acordos sociais e das estruturas de poder que determinam quem tem voz na construção da cidade. Falar em identidade paulistana sem discutir quem decide São Paulo é um erro conceitual. Embora exista um discurso crescente sobre diversidade e participação, o poder efetivo de decisão ainda permanece altamente concentrado. Não basta investir em educação ou em boas intenções projetuais: é necessário garantir acesso real aos espaços de decisão urbana. Sem essa redistribuição de poder, qualquer tentativa de resgate identitário corre o risco de se tornar apenas estética — e não transformação estrutural.
Comentário editorial — S.A.A Revista
A fala de Kim desloca a discussão da identidade urbana do campo simbólico para o político, evidenciando que projetos e discursos estéticos não operam transformação sem acesso real aos espaços de decisão.
S.A.A Revista: Dada a escala e densidade da cidade, quais são as estratégias mais eficazes para equilibrar a densificação com o acesso ao verde e à luz natural, algo tão presente em muitos de seus projetos residenciais?
Bruno Kim: O problema do adensamento em São Paulo não está na densidade em si, mas na forma como ela é regulada. Os parâmetros urbanísticos brasileiros tendem a ser excessivamente rígidos e, muitas vezes, pouco claros quanto ao problema que pretendem resolver. Acharia melhor que a legislação de São Paulo fosse orientada ao resultado, em vez de impor regras genéricas. Por exemplo, ao invés de estabelecer recuos e gabaritos, garantir a iluminação natural direta no quarto do vizinho, por algumas horas, durante o inverno. São Paulo precisa de menos engessamento normativo e mais clareza conceitual. Quando entendemos o impacto real que queremos evitar ou promover, o projeto ganha liberdade para responder melhor à complexidade urbana.
“São Paulo exige menos engessamento e mais clareza sobre o problema que cada norma pretende resolver.”
Sustentabilidade urbana
S.A.A Revista: A sustentabilidade tornou-se quase um requisito de marketing na arquitetura contemporânea. Na sua avaliação, quais práticas sustentáveis realmente produzem impacto urbano no longo prazo e são, de fato, viáveis economicamente em uma cidade como São Paulo?
Bruno Kim: Eu não acredito na ideia de impacto zero. Sustentabilidade não é um selo, é um processo contínuo, e profundamente ligado aos modos de vida. A verdadeira transformação não começa no edifício, mas nos hábitos de consumo, na organização social e na forma como ocupamos a cidade.A arquitetura tem um papel importante, mas muito mais limitado do que costuma se imaginar. Quando se deposita nela a responsabilidade total pela sustentabilidade, perde-se de vista que o problema é estrutural e coletivo.
Comentário editorial — S.A.A Revista
A recusa de Kim à ideia de “impacto zero” expõe um dos maiores equívocos do discurso sustentável contemporâneo: a crença de que a arquitetura pode compensar, sozinha, padrões de consumo e formas de ocupação territorial estruturalmente insustentáveis. Ao deslocar a responsabilidade do edifício para o modo de vida, o arquiteto recoloca a sustentabilidade no campo da organização social e urbana.
S.A.A Revista: Nesse contexto, como você entende o papel do arquiteto na promoção de um design regenerativo, que vá além da mitigação de impactos e contribua ativamente para a revitalização ambiental e social das cidades?
Bruno Kim: Antes de pensar em expandir a cidade, é fundamental olhar para o que já existe. São Paulo possui um número expressivo de imóveis vazios, especialmente em áreas centrais com infraestrutura consolidada. Nesse sentido, o retrofit é uma estratégia-chave, tanto do ponto de vista ambiental quanto social. O arquiteto precisa deixar de ocupar o lugar de autor isolado e assumir o papel de tradutor das vontades coletivas.Processos participativos, escuta ativa e uma comunicação mais acessível são fundamentais para que os projetos urbanos sejam realmente inclusivos e duradouros. Sem isso, qualquer discurso regenerativo se esvazia.
Comentário editorial — S.A.A Revista
Ao defender o retrofit como estratégia central para São Paulo, Kim evidencia a contradição entre expansão urbana contínua e subutilização da cidade existente. A regeneração, nesse contexto, desloca-se da criação do novo para a reinterpretação crítica do que já está construído.
Tecnologia e materiais inovadores
S.A.A Revista: A digitalização transformou profundamente o processo de projeto arquitetônico. Em termos de tecnologia e materiais, o que você considera realmente promissor para o contexto paulistano? E até que ponto regulamentações e fornecedores locais acompanham esse avanço?
Bruno Kim: Apesar de todos os avanços tecnológicos, existe hoje um afastamento preocupante entre o projeto e a obra. Dominar softwares e ferramentas digitais é importante, mas isso não substitui o entendimento profundo da construção real.No fim das contas, a arquitetura continua sendo feita de cimento, aço e vidro. Quando o arquiteto perde contato com o canteiro, com os limites e possibilidades materiais, corre o risco de produzir projetos desconectados da realidade construtiva — e, portanto, pouco inovadores no sentido prático.
Comentário editorial — S.A.A Revista
A tensão entre domínio digital e compreensão construtiva, apontada por Kim, revela um afastamento progressivo entre projeto e obra. Ao reafirmar o canteiro como instância fundamental da arquitetura, o arquiteto questiona uma prática cada vez mais abstrata e menos comprometida com a materialidade real da cidade.
Planejamento urbano e gestão pública
S.A.A Revista: Qual é, na sua opinião, o papel do poder público na construção de um planejamento urbano mais sustentável e equitativo? Até que ponto uma gestão municipal ou estadual comprometida pode impactar concretamente a vida cotidiana da população?
Bruno Kim: Sou relativamente cético quanto ao poder transformador isolado do Executivo. Muitas vezes, o foco excessivo nos governantes obscurece o papel central do Legislativo na definição das regras do jogo urbano.Além disso, acredito que os próprios arquitetos precisam assumir maior protagonismo político e institucional. Sem uma atuação mais ativa da categoria, tanto no debate público quanto na formulação de políticas, as mudanças tendem a ser pontuais e frágeis.
Comentário editorial — S.A.A Revista
Ao deslocar a responsabilidade da transformação urbana do Executivo para uma estrutura institucional mais ampla, Kim expõe um ponto sensível do urbanismo brasileiro: a baixa incidência política da arquitetura enquanto campo profissional. Sua fala encerra a entrevista não como diagnóstico isolado, mas como chamado à ação coletiva, em que legislação, categoria profissional e sociedade civil compartilham a responsabilidade pela construção da cidade.


