ALEXANDRE SALLES: Arquitetura como linguagem, território e responsabilidade cultural
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Atualizado: há 3 dias
Entre projeto, memória e poder — a recusa da neutralidade na arquitetura contemporânea

A produção arquitetônica contemporânea convive com um paradoxo incômodo: quanto mais se amplia o repertório técnico e imagético da disciplina, mais escasso parece o pensamento crítico sobre o que ela produz e para quem. É nesse campo de tensão que se insere a prática de Alexandre Salles — arquiteto, pesquisador e fundador do Estúdio Tarimba, mestre em semiótica urbana pela FAU-USP. Sua trajetória recusa sistematicamente a neutralidade do projeto e insiste numa pergunta que o campo prefere deixar em silêncio: o que a arquitetura significa, e para quem ela significa? Esta entrevista não é um portfólio. É um debate sobre posições.
Cultura e identidade como método
S.A.A. Revista
Você percebe uma mudança recente na forma como arquitetos e criativos brasileiros têm se relacionado com a própria cultura e identidade nos projetos? O que motivou esse movimento, na sua visão?
Alexandre Salles
Sim, percebo uma mudança bastante clara. Para mim, essa inflexão não surge como uma tendência estética, mas como resposta a um esgotamento: o cansaço diante de modelos importados e de narrativas universais que pouco dialogam com a complexidade do território brasileiro. O que observo hoje é uma busca mais consciente por repertórios que emergem da experiência vivida, dos modos de habitar, das memórias coletivas e dos saberes locais. Esse movimento é impulsionado por múltiplos fatores: o amadurecimento do debate cultural no país, a ampliação do acesso a discursos críticos e, sobretudo, a compreensão de que identidade não é um dado fixo, mas um processo em constante construção. Projetar a partir do Brasil não significa fechar-se ao mundo, mas reposicionar-se no diálogo global, assumindo um ponto de vista situado.
S.A.A. Revista
De que maneira referências brasileiras aparecem hoje de forma mais consciente e menos estereotipada na arquitetura contemporânea?
Alexandre Salles
Vejo essas referências surgindo de forma menos literal e mais estrutural. Não se trata de aplicar signos reconhecíveis ou repertórios folclorizados, mas de incorporar lógicas de uso, materialidades, temporalidades e modos de relação que fazem parte do cotidiano. O brasileiro deixa de ser tema e passa a ser método.
Quando essas referências são tratadas como sistemas de pensamento — e não como imagem — a arquitetura ganha densidade cultural e evita a armadilha da caricatura. Isso exige escuta, pesquisa e, muitas vezes, desaceleração do processo projetual, para que o espaço possa responder a modos reais de viver, e não apenas a expectativas visuais.
S.A.A. Revista
Trabalhar com identidade nacional é, para você, um gesto estético, político ou cultural? Ou tudo isso junto?
Alexandre Salles
Para mim, trabalhar com identidade nacional é um gesto que atravessa essas três dimensões. É estético porque se manifesta na forma, na matéria e na espacialidade; é político porque envolve escolhas, exclusões e disputas de narrativa; e é cultural porque participa ativamente da construção de imaginários coletivos.
Esses campos não operam de forma separada. Ao contrário, eles se contaminam e se reforçam. Assumir essa complexidade significa reconhecer que o projeto nunca é neutro — e que toda decisão espacial carrega implicações simbólicas e sociais. Projetar, nesse sentido, é sempre tomar posição.
O trabalho como leitura de mundo
S.A.A. Revista
Como esse resgate das raízes pode fortalecer não só a arquitetura, mas também o design brasileiro no diálogo com o mundo?
Alexandre Salles
Acredito que esse fortalecimento não se dá pelo exotismo, mas pela consistência de pensamento. O que interessa ao mundo não é uma imagem idealizada do Brasil, mas a capacidade brasileira de formular questões universais a partir de experiências locais.
Quando o projeto é enraizado, ele ganha singularidade sem se fechar. Pelo contrário, torna-se mais potente no diálogo global justamente por operar a partir de um ponto de vista claro, consciente e crítico. É essa combinação entre enraizamento e abertura que permite à arquitetura e ao design brasileiros ocuparem um lugar relevante internacionalmente.
S.A.A. Revista
Onde termina o diálogo cultural e começa o risco da apropriação estética?
Alexandre Salles
No meu entendimento, esse limite não é formal, mas ético. Ele se estabelece no modo de relação que o projeto constrói com as culturas que convoca. A apropriação estética ocorre quando símbolos, práticas e saberes são deslocados de seus contextos históricos e transformados em imagem consumível, esvaziada de complexidade.
O diálogo cultural exige tempo, escuta e implicação. Pressupõe reconhecer assimetrias e compreender que determinados repertórios não são livres de responsabilidade. Projetar a partir da cultura implica assumir compromissos — e não apenas extrair referências.
Campo profissional, poder e responsabilidade cultural
S.A.A. Revista
Quais foram os principais cuidados conceituais no espaço "Terreiro" da CASACOR 2024?
Alexandre Salles
No Terreiro, o cuidado fundamental foi compreender esse espaço não como forma, símbolo ou tipologia a ser representada, mas como estrutura relacional e ética espacial. Desde o início, tive clareza de que qualquer tentativa de tradução literal resultaria em redução ou fetichização. O projeto partiu, portanto, de uma recusa: a de transformar um espaço de matriz afro-brasileira em imagem reconhecível ou narrativa ilustrativa.
Entendi o terreiro como um território onde se articulam corpo, tempo, ancestralidade e convivência. Um espaço em que o cotidiano e o ritual não se separam, e onde a arquitetura não organiza apenas fluxos, mas modos de estar junto. Por isso, o projeto buscou operar por princípios — circularidade, permanência, escuta, horizontalidade — e não por signos explícitos.
Esse posicionamento dialoga diretamente com o pensamento de Lélia Gonzalez, ao reconhecer que as culturas afro-brasileiras não são camadas periféricas da cultura nacional, mas estruturas profundas de organização social, sensível e simbólica. O espaço não se propunha a explicar o terreiro, mas a criar condições para que certas experiências — de acolhimento, de tempo dilatado, de presença — pudessem emergir.
Tratei a ancestralidade não como memória fixa, mas como força ativa, capaz de dialogar com tecnologias contemporâneas sem perder sua densidade histórica. O projeto, portanto, não buscou representar a cultura afro-brasileira, mas se deixar atravessar por seus modos de pensamento.
A recusa da tradução literal, do símbolo fácil e da imagem reconhecível aponta para uma ética do projeto que entende cultura como estrutura viva — e não como repertório disponível para apropriação estética. Ao dialogar com o pensamento de Lélia Gonzalez, Salles explicita algo que ainda encontra resistência no campo arquitetônico: culturas historicamente marginalizadas não são ornamento. São fundamento.
S.A.A. Revista
Como você lida com as contradições entre ética cultural, autoria e as demandas do mercado?
Alexandre Salles
Entendo que essa contradição é constitutiva da arquitetura contemporânea. Negá-la seria ingênuo; romantizá-la, irresponsável. Aprendi que o desafio está em habitar esse conflito de maneira consciente, sem neutralizar as questões que atravessam o projeto.
Trabalhar com cultura e identidade dentro do mercado exige negociação constante, mas também clareza de posicionamento. Para mim, ética não é rigidez moral, mas a capacidade de sustentar critérios mesmo sob pressão. É possível operar dentro do sistema sem se diluir nele, desde que o projeto seja compreendido como campo de argumentação cultural — e não apenas como entrega formal.
Formação, legado e inegociáveis
S.A.A. Revista
Que papel a arquitetura pode desempenhar na formação de novas gerações de criativos?
Alexandre Salles
Para mim, a arquitetura tem um papel formativo que vai muito além do ensino técnico. Ela ensina modos de olhar, de ocupar o mundo e de se relacionar com o outro. Formar novas gerações implica reforçar que projetar é assumir responsabilidade sobre narrativas, escolhas e ausências.
Mais do que oferecer respostas, acredito que a arquitetura deve ensinar a formular perguntas — sobre pertencimento, território, memória e futuro. Esse deslocamento é essencial para que os novos criativos não apenas reproduzam modelos, mas construam pensamento crítico próprio.
S.A.A. Revista
Como você enxerga seu legado e a contribuição do seu trabalho para o futuro da arquitetura brasileira?
Alexandre Salles
Não penso legado como algo fechado ou monumental. Para mim, ele se constrói como campo aberto de influência e continuidade. Se existe uma contribuição possível no meu percurso, ela está menos na forma dos projetos e mais na postura diante do fazer arquitetônico: a recusa da neutralidade, o compromisso com a escuta e a compreensão da arquitetura como prática cultural implicada.
Se esse pensamento puder inspirar novas gerações a projetar com mais consciência histórica, sensibilidade social e coragem intelectual, considero que o trabalho cumpre seu papel.
Talvez um dos pontos mais relevantes desta conversa esteja na maneira como Salles nomeia aquilo que muitos preferem disfarçar: a contradição entre ética cultural, autoria e mercado não é exceção. É condição estrutural da arquitetura contemporânea. Ao afirmar que ética não é rigidez moral, mas sustentação de critérios sob pressão, o arquiteto desloca o debate da moralização para o campo da responsabilidade. Não se trata de negar o sistema — trata-se de compreender o projeto como espaço de disputa simbólica, onde cada decisão formal é também uma decisão política. A pergunta que resta: quantos arquitetos ainda estão dispostos a sustentá-la?
Alexandre Salles
Arquiteto e urbanista, designer, professor e pesquisador, é fundador do Estúdio Tarimba. Mestre em semiótica urbana pela FAU-USP, desenvolve projetos e investigações que atravessam arquitetura, design, arte, ancestralidade, cultura e território. Com atuação no Brasil e no exterior, participa de exposições, júris e publicações nacionais e internacionais, consolidando uma prática comprometida com relevância cultural, ética projetual e inovação situada.



