ZÉ VÁGNER em arquitetura como consciência: autoria, exclusão e o direito de existir no espaço.
- Sociedade, Arquitetura e Arte

- 9 de mar.
- 7 min de leitura
Atualizado: 16 de mar.
Quando a arquitetura volta a tocar as pessoas
Em um cenário em que a arquitetura é frequentemente reduzida à imagem, à assinatura e à performance estética, torna-se cada vez mais raro encontrar profissionais dispostos a sustentar um discurso que vá além do objeto construído. Esta entrevista nasce justamente desse interesse: ouvir arquitetos que compreendem a prática como leitura crítica do território, da profissão e do tempo em que atuam.
Zé Vágner é um desses nomes. Sua trajetória revela uma postura que resiste à superficialidade dominante e se apoia em reflexão, processo e responsabilidade. Mais do que discutir projetos específicos, esta conversa propõe uma pausa para pensar o papel do arquiteto contemporâneo, suas escolhas, seus silêncios e suas implicações.
A entrevista a seguir não pretende encerrar debates, mas abri-los. É um convite à escuta atenta e à reflexão em um momento em que pensar arquitetura talvez seja tão urgente quanto construí-la.

Trajetória e visão crítica
S.A.A Revista: Ao longo da sua trajetória, em que momento a arquitetura deixou de ser apenas um exercício formal e passou a se revelar como uma forma de leitura e intervenção no mundo?
Zé Vágner
Na faculdade, tive o privilégio de estudar em uma boa faculdade e, nas cadeiras de fenomenologia, por exemplo, eu entendi que arquitetura poderia ir além da cal e da pedra. Que a arquitetura podia mexer com o sentimento das pessoas. O objeto construído poderia marcar alguém.
Depois de formado, minha mãe estava reformando o banheiro aqui de casa, e ela foi à uma loja de revestimento que existe aqui em Recife. Ela olhou, não levou nada e eu me senti impotente, como se um médico não pudesse ajudar a curar uma doença da família. As soluções precisam ser simples, práticas e econômicas.
S.A.A Revista: Vivemos um tempo em que a arquitetura é frequentemente reduzida à imagem do objeto final. O que se perde quando o discurso arquitetônico se esgota na forma e na estética?
Zé Vágner
As pessoas que se destacam na internet são as pessoas que entenderam como a internet funciona. Tem muita gente boa, com bons conhecimentos, mas que ainda não conseguiram entender ou não querem se colocar na internet.
A desvalorização dos profissionais de base é outra questão que também precisa ser superada. Existe uma equipe por detrás do processo de construção e esses profissionais precisam ser valorizados.
Mas eu acredito que o que se perde é o “molho”. Se perde o processo e o conhecimento. Se perde a graça do negócio.
O antes e depois não mostra o todo. O filme 'Ainda estou aqui’... a atuação de Fernanda Torres, permitia o público sentir e não só constatar através da atuação. A arquitetura para mim, também é assim.
S.A.A Revista:
Perde-se a poesia. Você conta a história do lugar, dos materiais, realmente. E quando o discurso se perde apenas na estética, a gente perde essa poesia que as edificações têm. O que está por trás... As pessoas esquecem que existe um processo de projeto, existe um processo de construção.
O antes e depois não mostra o todo.
Autoria, vaidade e responsabilidade
S.A.A Revista: Como você enxerga a tensão entre autoria e vaidade na prática contemporânea? Em que ponto a afirmação autoral se torna um ruído ético? Hoje se fala muito de “autoria” e pouco de responsabilidade. Para você, onde termina o gesto autoral e começa o compromisso ético do arquiteto?
Zé Vágner
Eu gosto da 'parada' autoral. Você precisa entender quem você é no mundo e como isso vai somar à arquitetura.
Você não precisa usar determinadas roupas, falar o que todo mundo fala, bebendo as mesmas coisas. Isso não é autoral.
Os grandes arquitetos trouxeram para as suas arquiteturas, basicamente, quem eles são: suas vivências.
Eu nem gosto de ser o único nisso, de ser assim sozinho. Eu quero que todo mundo esteja junto. Citei todo mundo que estava no escritório no momento da publicação, apesar de que, quando comecei, só tinha eu. Eu acho uma besteira do ego humano ser assim. Todos nós vamos para o mesmo lugar.
Processo como discurso
S.A.A Revista: Mais do que o resultado, o processo carrega decisões, conflitos e posicionamentos. O que seus processos de projeto dizem sobre a sua visão de cidade e de sociedade?
Zé Vágner
É… Não são perguntas tão simples, não, né? (Risos.)
Meus processos falam de inclusão. O projeto da “Casa de Mainha”, quando eu pergunto para as pessoas aqui da rua, elas dizem que é diferente. Não dizem que é bonito. As pessoas da área acham, mas quem não é da área acha diferente. E eu faço para ser diferente mesmo. Diferente dessas casas que são feitas hoje.
Eu fiz e faço projetos muito simples. Eu faço arquitetura. O básico. E isso foi inovador. Mas eu não fiz para ser inovador. Eu faço como se deveria fazer. A arquitetura existe para melhorar a nossa vida.
O lugar precisa primeiro atender a uma necessidade primária, que é abrigar, entender o espaço e responder às necessidades do espaço também. O lugar precisa primeiro atender às necessidades humanas; depois a gente pensa em um revestimento bonito. É nisso que eu acredito.
Eu lembro que alguém, em determinado momento, disse que, para ser arquiteto, era necessário ter bom gosto. Hoje eu responderia que não é questão de bom gosto. Quando muito, é resolver uma necessidade humana mesmo: conforto ambiental, lumínico, térmico, se é caro para o bolso do cliente... E, para isso, não precisa ter bom gosto. É só estudar.
O lugar precisa primeiro atender às necessidades humanas; depois a gente pensa em um revestimento bonito. É nisso que eu acredito.
S.A.A Revista:
Esse arranjo todo é arquitetura. Fatores técnicos, sensoriais e humanos são, essencialmente, arquitetura. Particularmente, discordo de termos como ‘neuroarquitetura’, 'biofilia' e afins, pois a arquitetura sempre se dedicou a compreender como o ser humano percebe, ocupa e é influenciado pelo espaço.
Durante a formação, estudamos diferentes disciplinas — elétrica, hidrossanitárias, acústica, história da arte — que convergem para esse mesmo entendimento. A arquitetura, em sua essência, é justamente isso: a resposta construída às necessidades humanas e à forma como o homem se relaciona com o espaço.
Zé Vágner
Eu também discordo. (Risos)
S.A.A Revista: O que mais te incomoda no modo como a arquitetura tem sido comunicada? Especialmente nas redes e nas premiações?
Zé Vágner
Eu quero estar cada vez menos por dentro dessas premiações. Quanto mais eu vejo o outro, vejo o que o outro está fazendo, menos de mim eu tenho.
As premiações obedecem a um padrão, a um modo etc., e as premiações são um meio ainda mais excludente dentro de um meio que já é excludente.
Quando olho para essas premiações, eu não me enxergo lá. O Brasil não é um país de brancos, não é um país de gente que tem dinheiro.
... as premiações são um meio ainda mais excludente dentro de um meio que já é excludente.
S.A.A Revista: É possível sustentar uma prática arquitetônica crítica em um cenário cada vez mais orientado por tendências, métricas e validação rápida? Onde você negocia e onde você não negocia?
Zé Vágner
Eu não me sinto no lugar de negociar muito. Eu já fiz casas que eu detestei, já fiz casas pelo dinheiro e hoje eu faço bem menos. Negar minha origem? Não. Ser eu, é inegociável.
S.A.A Revista: A quem pertence hoje o debate sobre a cidade? O arquiteto tem se ausentado dessa arena ou foi progressivamente deslocado dela? Na sua opinião, o arquiteto brasileiro tem se ausentado do debate público e político? Se sim, por quê?
Zé Vágner
Eu tive uma professora que, inclusive, foi criadora das ZEIS, muito difundidas em São Paulo. Pode ser um misto de vários problemas de um país emergente. Mas essa coisa de se ausentar acontece... ao atender uma demanda rápida, acaba não sobrando tempo... Acho que existe uma preocupação muito maior com a necessidade de pagar as contas.
FORMAÇÃO E DISTANCIAMENTO DA REALIDADE
S.A.A Revista: Que lacunas você identifica entre a formação acadêmica do arquiteto e as complexidades reais do território brasileiro?
Zé Vágner
Minha faculdade foi muito boa. Mas entender onde o sol nasce e onde o sol se põe é o básico.
Tive uma educação muito regionalizada, e vinha sempre o questionamento: “e se a gente for projetar no Sul?”.
Esse estudo nos fez entender que isso é importantíssimo para compreender o que vamos projetar.
S.A.A Revista:
Eu, como egressa de uma instituição privada, onde também fui bolsista, reconheço que tive professores importantes, que contribuíram para a construção de um norte inicial. No entanto, olhando hoje, a partir da minha atuação como arquiteta, gestora e crítica, compreendo que a base mais sólida da minha formação foi construída para além da universidade.
S.A.A Revista: Se você pudesse deslocar o foco da arquitetura contemporânea de um único lugar para outro, qual seria esse deslocamento e por quê?
Zé Vágner
Eu deslocaria a atenção para esses 92% que não têm acesso à arquitetura. O que falta? É só dinheiro? Eu não acho.
Abrir uma esquadria na casa de alguém, melhorando a saúde do espaço, é mais útil do que escolher uma cor baseada na cor do ano.
Eu deslocaria a atenção para esses 92% que não têm acesso à arquitetura.
Indicação de livro: A terra dá, a terra quer", de Nêgo Bispo (Editora Ubu/Piseagrama, 2023)
Ao longo da conversa, Zé Vágner retorna repetidamente a uma ideia que parece elementar, mas que hoje soa quase deslocada no debate arquitetônico: a arquitetura existe para responder a necessidades humanas.
Quando o arquiteto afirma que abrir uma esquadria pode ser mais transformador do que escolher a cor do ano, ele desloca o centro da discussão. O problema deixa de ser estético e passa a ser estrutural: quem tem acesso à arquitetura e quem permanece fora dela.
Se a maior parte da população ainda vive sem acesso real à arquitetura, talvez a pergunta final não seja apenas como projetamos, mas para quem continuamos projetando.



