Senna Tower: quando o espelho não reflete o futuro
- Jéssica Barretto

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Por Jéssica Barretto
O anúncio do Senna Tower, projetado para ser o maior edifício residencial do mundo, causou alvoroço nas redes, manchetes em veículos internacionais e, claro, um frenesi mercadológico típico do imaginário verticalizado brasileiro. Mas, passada a euforia estética e o impacto simbólico, é preciso perguntar: que tipo de arquitetura estamos realmente celebrando?
Idealizado por Lalalli Senna, designer e artista multimídia (sobrinha de Ayrton Senna), o projeto propõe uma leitura da “jornada do herói”, encarnada em vidro e aço. Cada trecho da torre narraria uma fase da vida e da trajetória de superação do piloto. É, portanto, um edifício-conceito. E tudo isso poderia ser lindo… se não estivéssemos em 2025, numa era em que a arquitetura não pode mais se limitar a alegorias verticais.
Espelho, espelho meu…
A fachada do Senna Tower é quase integralmente revestida com vidro espelhado. Brilhante, imponente, altamente reflexiva. Uma estética que grita poder, exclusividade e distanciamento. Mas aqui vão as contradições: conforto térmico e eficiência energética, impacto ambiental e arquitetura que não conversa.
Mesmo considerando a ponta em vidros de alto desempenho, o uso extensivo desse material agrava significativamente as demandas por climatização artificial, contrariando os princípios de eficiência energética e conforto passivo — especialmente em uma cidade litorânea como Balneário Camboriú. O ganho de carga térmica é imenso, exigindo sistemas de climatização de grande porte.
Isso vai na contramão da arquitetura sustentável, apesar do marketing da certificação LEED Platinum. Uma fachada quase toda espelhada em um clima tropical litorâneo é um paradoxo em si.
O espelhamento é também um dos maiores causadores de acidentes fatais com aves urbanas, além de contribuir para a poluição luminosa e o desconforto visual em áreas densas, refletindo luz solar de forma agressiva em contextos urbanos.
Enquanto o marketing vende o projeto como ícone nacional, sua relação com o entorno é nula. Ele não se abre para o contexto urbano, não valoriza a paisagem nem cria relação com a rua.
O fetiche do monumental
Há uma corrida silenciosa (ou nem tanto) no Brasil: quem ergue o maior, o mais caro, o mais exclusivo. O Senna Tower entra nesse jogo com apartamentos entre R$ 28 milhões e R$ 300 milhões — valores que reforçam um tipo de arquitetura voltada ao acúmulo e não à coletividade. É arquitetura como mercadoria de luxo, não como ferramenta de transformação social ou ambiental. É o glamour vertical de uma desigualdade estrutural.
Uma tendência já criticada por autores como Rem Koolhaas e Jean Nouvel: a espetacularização da arquitetura como produto de luxo, fetichizada, que serve mais ao ego dos investidores do que à cidade. A promessa do “maior prédio residencial do mundo” é uma batalha de egos verticais, que pouco contribui para o debate arquitetônico. É um projeto mais publicitário do que urbanístico, onde a arquitetura vira símbolo, não solução.
Não se trata de desvalorizar o projeto. Ele tem méritos estruturais, inovação técnica e valor simbólico. Mas arquitetura, gestores e curadores da paisagem urbana precisam cobrar mais do que formas emocionantes e fachadas instagramáveis.
A arquitetura do futuro não pode se espelhar apenas no passado glorioso. Ela precisa olhar para o chão, para o entorno, para o clima, para o outro.
Enquanto o Senna Tower mira o céu, a pergunta que fica é: o que ele devolve à cidade além da sua sombra?




