Sobre Flutuar: Bosjes Chapel, Steyn Studio
- Jéssica Barretto

- há 2 dias
- 3 min de leitura
Review — Bosjes Chapel, Steyn Studio Witzenberg, Western Cape, África do Sul. Concluída em 2016.

Existem projetos que a fotografia quase estraga. Não porque sejam fotografados mal, mas porque a imagem entrega tudo de uma vez, sem o tempo que o espaço pede. A Bosjes Chapel parece ser desse tipo. Você já viu. Todo mundo já viu. E ainda assim, algo nela insiste em não se esgotar na tela.
O projeto é do escritório londrino Steyn Studio, assinado pelo arquiteto sul-africano Coetzee Steyn. Está numa propriedade vinícola no distrito de Witzenberg, encostada nas montanhas do Western Cape. A cobertura ondulante em concreto branco é o que circula nas redes e é também, de fato, o coração do que foi construído.

A forma
A casca de concreto se sustenta sozinha. Cada ondulação desce até o chão e vira apoio: a cobertura é, ao mesmo tempo, parede e pilar. Não há colunas intermediárias, não há nada que interrompa a leitura da forma. Para chegar nisso, Coetzee Steyn e o engenheiro Henry Fagan trabalharam com arcos parabólicos e hiperbólicos, a mesma lógica estrutural de Félix Candela, o arquiteto espanhol que revolucionou as cascas de concreto no México nos anos 1950. O resultado é uma forma que parece improvável. Concreto que parece tecido. Peso que parece suspensão.
O diálogo com a paisagem
O que torna a chapel mais do que um exercício formal é a precisão com que ela conversa com o que já estava lá. As ondulações da cobertura espelham a silhueta das montanhas ao fundo. As bordas recortadas reinterpretam as cúpulas barrocas "holbol" da arquitetura Cape Dutch presente na casa-sede histórica da fazenda, aquela combinação de curvas côncavas e convexas que cria picos e vales nas fachadas coloniais da região. A chapel não imita. Ela ecoa. E há uma diferença grande entre as duas coisas.

O espelho d'água
O edifício é elevado sobre um plinto nivelado com a superfície da água. À noite, o reflexo dissolve o apoio e a chapel parece literalmente flutuar. Durante o dia, as sombras que o teto irregular projeta sobre o interior mudam com o sol: o espaço nunca é exatamente o mesmo. O piso de terraço polido devolve a luz. A madeira dos bancos aquece o que o concreto poderia esfriar. É uma espacialidade que parece ter sido pensada hora a hora, não só foto a foto.
O que o projeto realiza
A Bosjes Chapel faz algo genuinamente difícil: tem presença forte sem ser agressiva. Não compete com a montanha, propõe um eco. O próprio Coetzee Steyn disse que "icônico" nunca foi o ponto de partida. A beleza era. E que o edifício precisava fazer as pessoas perguntarem como, quase como se estivesse suspenso por algo que não a gravidade. É uma ambição legítima, e pelo que tudo indica, foi alcançada.
Uma última nota
A fazenda Bosjes carrega história desde 1790, e o Western Cape tem camadas que nenhuma arquitetura apaga nem deveria tentar. Ir até lá é encontrar beleza e história embaralhadas, e cabe ao visitante decidir o que fazer com isso. O espaço merece o encontro presencial. A pergunta que ele levanta, também.
Esta review foi escrita a partir de documentação, registros fotográficos e fontes publicadas, não de uma visita. Há algo que só o espaço vivido entrega, e a Bosjes Chapel parece ser exatamente o tipo de projeto que pede esse encontro.




