Jéssica Barretto
1 de jul.3 min de leitura

arquitetura, arte e suas implicações na sociedade

Um convite a sair do caminho mais óbvio. Lugares, experiências, arquitetura, comida, cultura e tudo aquilo que vale uma pausa, um olhar mais atento ou um pequeno desvio.
A resposta é objetiva: as duas coisas já estão em curso. Se por um lado, o uso de inteligência artificial pode ajudar na operação de tarefas burocráticas, por outro, a ferramenta está sendo utilizada para criar cenários distópicos que de nada servem para o bem comum da sociedade.
Não faremos aqui um extenso relato sobre o uso de Inteligência Artificial (IA), uma vez que o tema é amplamente debatido em diferentes aspectos da vida e por outros campos profissionais. Nas universidades, as três grandes estaduais paulistas, USP, Unicamp e Unesp, posicionaram-se recentemente com diretrizes para o uso de IA nas produções acadêmico-científicas. Para nós, o objetivo é debater o uso da IA no campo do urbanismo: o planejamento urbano, a mobilidade, o patrimônio cultural e todas as frentes profissionais de conhecimento que dizem respeito aos territórios, sejam rurais ou urbanos, com efeito, nas cidades.
São recorrentes as imagens criadas por IA que buscam ilustrar paisagens urbanas, mas que declaradamente fogem da realidade das cidades brasileiras e dos países do Sul Global. Você já experimentou criar uma imagem que ilustre uma cidade brasileira com o auxílio dessas ferramentas? O resultado é um cenário plástico que toma as cidades do Norte como ponto de partida: as feições dos edifícios e suas disposições no espaço se assemelham a lugares dos Estados Unidos e da Europa, não do Brasil. Quando somos genéricos nas solicitações, o problema se agrava. As imagens produzidas inspiram-se, quase invariavelmente, no contexto dos países mais ricos. Se já carregamos uma autoestima frágil sobre nossa urbanidade, submetida a profundas desigualdades socioespaciais, a produção de imagens artificiais que apresentam cidades falsas em nada contribui. Pelo contrário, potencializa a deturpação de uma realidade que urbanistas e outros profissionais do território tentam, a duras penas, transformar.
O Brasil enfrenta uma situação delicada na preservação do seu patrimônio cultural, sobretudo quando vinculado aos estratos sociais populares e trabalhadores. Nas disputas pela preservação, é recorrente que advogados do setor imobiliário aleguem falta de "relevância arquitetônica" para contestar tombamentos vistos como obstáculos aos interesses econômicos do mercado. Como resultado, o senso comum passa a identificar como patrimônio cultural apenas os espaços dotados de monumentalidade: grandes palácios convertidos em museus, arranha-céus históricos e conjuntos arquitetônicos que se destacam em áreas centrais de poder nas cidades. A IA tem reforçado esse imaginário ao reproduzir, sistematicamente, os espaços das cidades europeias e norte-americanas, que dominam os imaginários urbanos perpetuados ao redor do globo, seja por meio de acordos e políticas culturais, seja pelo alcance da indústria cinematográfica. Se não estabelecermos uma frente estratégica para o uso da IA no urbanismo, corremos o risco de nos tornarmos cúmplices de uma opressão cultural de escala mundial, na qual nossa urbanidade e territorialidade nacional ficam subordinadas a referências externas. A tecnologia é instrumento de disputa entre interesses públicos e privados, entre a lógica da propriedade e o bem coletivo. Não nos cabe recusá-la, mas sermos rigorosos sobre como, quando e por que utilizá-la.
Outro exemplo ilustra bem o problema: imagens de territórios periféricos geradas por IA revelam, de imediato, a artificialidade do que é produzido. Periferia não é apenas uma localização geográfica; é o lugar de quem foi empurrado para as margens e precisa reivindicar, social e politicamente, direitos básicos. A IA não pode substituir essa realidade territorial. Estratégias existem para mitigar o problema: fornecer imagens de referência da nossa própria realidade e exigir que a ferramenta opere com referências nacionais ou regionais pertinentes. Ainda assim, dentro de um país como o Brasil, mesmo o âmbito nacional é insuficiente, pois um bairro de São Paulo tem pouca ou nenhuma relação com bairros de Manaus ou Brasília. É necessário, portanto, exigir referenciais específicos para os territórios de interesse, a fim de usar a ferramenta com responsabilidade e fidelidade ao que já existe.
Não é razoável normalizar o uso da IA de forma meramente especulativa, como método de promoção imobiliária ou de criação de projetos distópicos. Um exemplo sintomático: algumas propostas já tomam o Palácio dos Bandeirantes como objeto de interesse imobiliário, diante da previsão de que a sede do Governo do Estado de São Paulo se transfira para o futuro complexo nos Campos Elíseos, na área central. Por ser um edifício monumental, o palácio começa a ser tratado como patrimônio a ser preservado não por compromisso cultural, mas como ativo de valorização do entorno no Morumbi. Não faltam fotografias para representar visualmente os territórios que compõem a sociedade. Não faltam registros das tragédias climáticas, o que torna ainda menos justificável o uso de IA para falsificar o imaginário sobre enchentes e deslizamentos. E não se trata apenas da representação das edificações: é emblemático como a IA não consegue reproduzir a realidade dos espaços públicos fragmentados, deteriorados e inacessíveis da maior parte das cidades brasileiras. As calçadas aparecem sempre impecáveis e padronizadas, prontas para valorizar novos empreendimentos.
Dito isso, nunca é tarde para lembrar: urbanismo não é falar de calçadas, ciclovias ou novos empreendimentos. É uma ciência e um campo profissional complexo, contraditório e profundamente político. Não é território para meros entusiastas de cidade. Exige profundidade, abertura ao diálogo e ética profissional, o que significa, em última instância, responsabilidade social. Precisamos ter cuidado para que uma boa intenção não se converta em produto emocional voltado apenas para os olhos. A IA é como uma taça de vidro: posso usá-la para beber água, colocá-la em uma prateleira ou atirá-la contra a parede.

Colunista convidado, colaboração encerrada.
Mestre em História e Fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da Universidade de São Paulo. É associado ao Instituto Território em Rede, sediado em Ribeirão Preto, e membro do Núcleo de Patrimônio da Comissão de Direito Urbanístico da Ordem dos Advogados de São Paulo (OAB/SP).







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