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LEIA, PENSE E QUESTIONE

arquitetura, arte e suas implicações na sociedade

COLUNA

por Jéssica Barretto

Desvios

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Um convite a sair do caminho mais óbvio. Lugares, experiências, arquitetura, comida, cultura e tudo aquilo que vale uma pausa, um olhar mais atento ou um pequeno desvio.

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O bem-estar entrou na planta ou só na fachada?

Atualizado: 21 de jul.

O mercado imobiliário descobriu o wellness. A pergunta é o que, de fato, mudou no metro quadrado.

DESVIOS, assinatura de Jéssica Barretto

Nos últimos meses, reportagens de veículos de mídia especializados em mercado imobiliário e economia têm tratado o "wellness imobiliário" como tendência consolidada. Empreendimentos vendem desaceleração como amenidade, ao lado de piscina e academia. As imagens que ilustram essa cobertura seguem um padrão: deck de madeira, guarda sóis, água em tom turquesa. O texto fala em "luxo da desaceleração". É um símbolo de época. Depois de uma década vendendo velocidade, conectividade e status por metro quadrado, o mercado agora vende o oposto disso. Isso, por si, é uma mudança de discurso que merece ser registrada, não descartada como marketing disfarçado antes mesmo de ser examinada.


O problema não é o discurso. É descobrir se ele desceu até a planta baixa.


Wellness, no vocabulário do mercado, tem sido tratado como sinônimo de amenidade, algo que se soma ao produto, não que reorganiza o produto. Spa, sala de meditação, trilha de caminhada no jardim comum, tudo isso convive, sem contradição nenhuma, com uma unidade de 32 metros quadrados vendida como "studio compacto e funcional", com quarto sem ventilação cruzada e cozinha americana que existe porque não há espaço para cozinha. O bem-estar, nesse arranjo, mora na área comum. Na unidade privada, onde a pessoa efetivamente passa a maior parte do tempo, nada mudou.


Isso revela uma separação estrutural que o discurso de wellness tende a borrar: bem-estar como experiência coletiva vendida, e habitabilidade como variável técnica que continua sendo negociada pra baixo. São coisas diferentes. A primeira aparece no material de vendas. A segunda aparece na ficha técnica, na área privativa, no laudo de insolação, que raramente é motivo de orgulho de nenhum lançamento.


Vale reconhecer, sem ironia, que o vocabulário mudou porque a demanda mudou. Depois de anos de discurso de eficiência de espaço, com "cada metro conta" e "otimização de layout" como frases repetidas, parte do mercado sentiu que vender ansiedade compactada não é mais suficiente. Isso é real e é bom. A pergunta que a crítica precisa fazer não é se a intenção é genuína. É se a intenção, quando existe, tem poder de alterar a equação econômica que sempre determinou o tamanho da unidade: preço do metro quadrado dividido pela margem que o incorporador aceita perder.


E aí está a contradição central: o mercado consegue vender a ideia de bem-estar sem tocar na variável que mais afeta o bem-estar real, que é espaço. Aumentar metragem reduz unidades por andar, reduz receita por torre, reduz margem. Nenhum discurso de wellness, por mais sincero que seja no departamento de marketing, sobrevive a essa conta numa reunião de viabilidade. O spa é mais barato de entregar do que o metro quadrado a mais, e resolve o problema de posicionamento sem tocar no problema de rentabilidade. É esse o motivo estrutural pelo qual o bem-estar chega até a área comum e para exatamente na porta da unidade.


Isso não invalida os lançamentos que estão, de fato, revisando programa. Os que reduzem número de unidades por andar, os que priorizam ventilação natural mesmo perdendo eficiência de planta, os que tratam varanda como espaço de uso e não como número decorativo no memorial. Esses existem, ainda que minoritários, e são o teste real do movimento: quando o wellness aparece no projeto arquitetônico e não só no departamento de comunicação, ele custa caro pra quem constrói. É aí que se mede se o discurso é reforma ou é embalagem.


A questão que fica, então, não é se o mercado vai baixar preço. Não vai, e ninguém deveria esperar isso de um setor cuja lógica é maximizar retorno por metro construído. A questão é mais afiada: quando a próxima geração de lançamentos "wellness" for lançada, o memorial descritivo vai mostrar metragem privativa maior, ou vai mostrar a mesma metragem de sempre com uma sala de yoga no térreo?


A resposta a essa pergunta separa quem mudou de fato o que constrói de quem apenas mudou o que fotografa.



Jéssica Barretto é Arquiteta e Urbanista, head criativo e executivo do JBARQ+ Arquitetos. Fundadora da S.A.A Revista, onde atua como Publisher, Editora-chefe e Colunista. Em seu tempo livre você pode encontrá-la em alguma prainha erma ou apreciando um chá em meio à natureza. Ou dançando.

 
 
 

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