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LEIA, PENSE E QUESTIONE

arquitetura, arte e suas implicações na sociedade

COLUNA

por Jéssica Barretto

Desvios

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A Ferida que Abre, Casa Sabugo, Asturias, Espanha




Existe uma decisão em arquitetura que a maioria dos escritórios evita por completo: a de destruir para construir. Não no sentido banal da demolição prévia à obra nova, mas no sentido deliberado, cirúrgico, de abrir uma ferida no corpo existente de uma edificação e deixá-la ali — visível, exposta, produtiva. Na Casa Sabugo, a demolição da fachada leste foi a decisão fundamental que estrutura todo o projeto.  Não um recurso compositivo entre outros. A decisão.


A casa está situada em Sabugo de Otur, núcleo rural costeiro próximo a Luarca, no concejo de Valdés, em Asturias. Um universo rural que preserva o patrimônio natural da costa asturiana ocidental, onde praia e montanha coexistem, e cujas casas são austeras, pouco dadas ao exibicionismo, apresentando volumes puros e rotundos, com coberturas em duas águas acabadas em ardósia.  É nesse contexto de sobriedade acumulada que a intervenção opera.


O projeto parte de uma preexistência: uma pequena residência familiar que havia vivido muito, era lembrança, infância, ilusão. Mas agora precisava viver de outro modo, ver mais. Essa frase, que poderia ser apenas poesia de press release, descreve na verdade o problema arquitetônico real: um volume compacto, correto em sua relação com o entorno, mas internamente fechado sobre si mesmo, negando a paisagem que o cercava. A questão não era construir mais. Era abrir.



A demolição da fachada leste abriu caminho para uma fachada de vidro cuja transparência permitiu que os cômodos crescessem — que o limite da casa passasse a estar no horizonte, no mar, no céu, nas montanhas.  É uma operação de deslocamento de fronteira: a parede sólida, que demarcava onde terminava o privado e começava o mundo, é substituída por um plano transparente que dissolve essa distinção sem eliminá-la. O limite continua existindo — agora é apenas honesto sobre sua própria fragilidade.


Internamente, dada a reduzida superfície da residência, decidiu-se suprimir as divisórias e criar uma única estância desenvolvida em três alturas, comunicando o térreo, o primeiro andar e o sótão — um loft em três níveis. A compressão do programa numa única peça contínua verticalmente não é apenas resposta à metragem: é uma aposta na continuidade espacial como experiência. O habitante não circula entre cômodos — habita um único volume estratificado, onde o movimento é sempre consciente de si mesmo.


Na fachada lateral, caixões de aço corten e vidro respeitam os vãos de janelas existentes. O óxido como marca da passagem do tempo — a fachada nua, sem revestimento, sincera. É aqui que o projeto revela sua posição estética mais clara: a imperfecção não como falha tolerada, mas como matéria de projeto. A intenção era criar um refúgio que colocasse em valor essa beleza humilde que têm as coisas simples, imperfeitas, com memória, erodidas pelo tempo. Um caos ordenado que nos convide a ir mais devagar.

O detalhe do columpio — um balanço instalado onde o proprietário brincava quando criança, posicionado em frente à fachada demolida  — é o momento em que a operação arquitetônica e a operação afetiva se tornam explicitamente a mesma coisa. Não é ornamento. É o argumento materializado: o que foi destruído não desapareceu, foi convertido em presença de outro tipo.


O que o projeto entrega: uma reflexão genuína sobre os limites entre intervenção e preservação, entre abertura e proteção, entre memória e transformação. Tagarro-De Miguel não está interessado em fazer uma casa nova sobre uma casca antiga. Estão interessados na condição específica daquilo que permanece quando você remove o que era supérfluo. Isso é raro e é tecnicamente executado com rigor: no pórtico de acesso, elementos estruturais foram sendo retirados progressivamente até restar apenas uma chapa e um pilar, buscando leveza e certo desequilíbrio.


A contradição que o projeto não resolve: a Casa Sabugo é, apesar de todo seu discurso de austeridade e memória coletiva, uma casa de segunda residência para um proprietário com sensibilidade e recursos para financiar uma obra cujo orçamento foi construído, em boa medida, no processo, no azar, como os próprios arquitetos reconhecem. A narrativa da humildade material coexiste com a condição privilegiada de quem pode encomendar um projeto que pensa sobre si mesmo dessa forma. Isso não invalida a obra. Mas tampouco pode ser ignorado.


Veredicto: A Casa Sabugo é um projeto honesto sobre o que é. E essa honestidade, que se manifesta no aço oxidado, no concreto aparente, na demolição assumida como cicatriz. Num panorama arquitetônico onde a reforma é frequentemente disfarçada de nova construção, ou qualquer imovél reformada é chamado de retrofit, aqui a intervenção não teme aparecer como intervenção. A ferida está à vista. E é exatamente isso que deixa a casa respirar.







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