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LEIA, PENSE E QUESTIONE

arquitetura, arte e suas implicações na sociedade

COLUNA

por Jéssica Barretto

Desvios

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Um convite a sair do caminho mais óbvio. Lugares, experiências, arquitetura, comida, cultura e tudo aquilo que vale uma pausa, um olhar mais atento ou um pequeno desvio.

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Reading Between the Lines

O que resta quando uma igreja aprende a desaparecer



Em 24 de setembro de 2011, uma igreja surgiu num vale da região rural de Borgloon, no Flandes belga. Não havia missa, não havia sino, não havia paroquianos. A estrutura foi erguida como parte do projeto Z-OUT, uma iniciativa do museu de arte contemporânea Z33, de Hasselt, para instalar obras em espaço público na região de Limburg.


O que os arquitetos Pieterjan Gijs e Arnout Van Vaerenbergh construíram ali não é exatamente uma igreja, e é exatamente isso que torna o projeto impossível de ignorar.


Reading Between the Lines pesa 30 toneladas. É formada por 100 camadas sobrepostas e 2.000 colunas de aço, erguidas a dez metros de altura sobre uma fundação de concreto armado. Do ângulo frontal, parece sólida. Dê alguns passos para o lado, mude a elevação do olhar, e a estrutura desaparece. As paredes se dissolvem na paisagem flamenca de campos e macieiras. De dentro, a luz solar atravessa os vãos e forma um tabuleiro de xadrez no chão, denunciando o que de fora parece uma parede coerente.


A ilusão óptica é real. O problema é que ela tem sido lida, quase universalmente, como a obra.


O gesto mais interessante do projeto não é o que ele faz com a luz. É o que ele faz com uma pergunta que a Bélgica, e boa parte da Europa Ocidental, prefere não formular em voz alta: o que acontece quando uma instituição que organizou o espaço, o tempo e a moral de uma comunidade por séculos começa, simplesmente, a desaparecer?


Ao vencer o concurso promovido pelo Z33, os arquitetos foram explicitamente convocados a criar um espaço público que respondesse à relação da cidade com suas igrejas. Borgloon possui 24 igrejas, e apenas metade segue em uso. Não é uma exceção. É a norma em toda Flandres, nos Países Baixos, na Alemanha, na França. Comunidades envelhecidas, frequência em queda, custos de manutenção insustentáveis. A Igreja que por tanto tempo foi o centro gravitacional da vida comunitária está, metodicamente, sendo esvaziada.


Os arquitetos escolheram para seu projeto um terreno ao longo de uma rota de ciclismo popular. A obra é acessível apenas a pé ou de bicicleta. A construção não possui função definida e concentra-se na experiência visual em si, podendo ser considerada um desenho de linhas no espaço. Ao mesmo tempo, a ausência de função litúrgica é precisamente o que a transforma em comentário: a instalação levanta questões sobre o potencial de reaproveitamento artístico dessas estruturas.



Isso é mais honesto do que parece. E mais inquietante do que os seus autores admitem.

Van Vaerenbergh afirma, em entrevistas, que o projeto não carrega intenção religiosa. O espaço entre a forma "existe para deixar margem à interpretação." É uma posição elegante, e também é um modo de se esquivar. Porque Reading Between the Lines não é neutro. Ele toma partido ao escolher o que preservar: a silhueta, a nave, o campanário apontado para o céu. A geometria do sagrado permanece; a função do sagrado é evacuada. O invólucro fica. O conteúdo some.


Há algo profundamente sintomático nesse gesto. A Europa secular contemporânea não sabe o que fazer com o patrimônio religioso (demolir parece brutalidade, manter parece hipocrisia, converter em hotel ou co-working parece capitulação ao mercado). Reading Between the Lines propõe uma quarta via: estetizar o vazio. Transformar a ausência em obra de arte. Celebrar a dissolução como poética.


É uma operação cultural que merece ser nomeada: a patrimonialização do esquecimento.


O projeto funciona, materialmente, porque o aço Corten faz seu trabalho. A proporção de 1 centímetro de metal para 9 centímetros de abertura mantém a forma tipológica enquanto permite que a paisagem atravesse a estrutura, uma decisão que é ao mesmo tempo estética e filosófica. A igreja é 90% ar. O que ela oferece de concreto é a memória de uma forma.


Os arquitetos escanearam a laser uma igreja existente nas proximidades para capturar suas proporções. "Queríamos nos referir à forma mais psicológica de uma igreja", disse Van Vaerenbergh. "A forma mais psicológica." É uma formulação reveladora. O que permanece de uma instituição quando sua função desaparece é exatamente isso: a forma psicológica. O traçado que o inconsciente coletivo ainda reconhece como sagrado, como centro, como orientação.


Reading Between the Lines é uma autópsia de 30 toneladas. A forma persiste; a vida que a animava, não.


O que a obra não pergunta, e deveria, é para quem esse vazio é poético. A estetização do declínio institucional é um luxo disponível para quem sempre teve acesso a outras instituições, a outros centros, a outras formas de comunidade. Para as comunidades rurais de Borgloon, muitas das quais organizaram batizados, casamentos, funerais e festas por gerações naquelas 24 igrejas, a dissolução não é uma ilusão óptica. É uma perda real, sem substituto disponível.


O projeto foi instalado ao lado de uma rota de ciclismo frequentada por turistas urbanos. Não por acidente.


Reading Between the Lines é uma obra notável (formalmente rigorosa, conceitualmente coerente, fotograficamente irresistível). Mas sua maior honestidade não está no que ela revela sobre a arquitetura religiosa. Está no que revela sobre quem produz, financia e consome arte pública contemporânea: pessoas para as quais o fim de uma instituição pode ser contemplado, com beleza, de uma distância segura.


A questão que permanece, depois que o visitante enfila a bicicleta e segue pelo vale, é para quem a lacuna entre as lâminas de aço é poesia, e para quem é apenas a ausência do que havia antes.


Ficha técnica

Reading Between the Lines. Gijs Van Vaerenbergh (Pieterjan Gijs e Arnout Van Vaerenbergh). Borgloon, Limburg, Bélgica. 2011.

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