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LEIA, PENSE E QUESTIONE

arquitetura, arte e suas implicações na sociedade

COLUNA

por Jéssica Barretto

Desvios

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Um convite a sair do caminho mais óbvio. Lugares, experiências, arquitetura, comida, cultura e tudo aquilo que vale uma pausa, um olhar mais atento ou um pequeno desvio.

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Belo Horizonte: a cidade que sabe receber

Uma metrópole que guarda, no seu centro mais vivo, uma das experiências urbanas mais genuínas do Brasil


Há cidades que você entende pelo skyline. Belo Horizonte você entende pelo cheiro — de queijo, de couve refogada, de café coado forte e sem cerimônia. A cidade foi planejada para ser racional e republicana, mas o que ela de fato construiu, ao longo de mais de um século, foi uma cultura urbana do encontro: densa, afetiva, hospitaleira de um jeito que não pede licença.


O Mercado Central é o lugar onde isso fica mais evidente. Fundado em 1929 e reformado ao longo das décadas sem perder sua essência de mercado popular, o espaço reúne em seus mais de 400 boxes uma curadoria involuntária do que Minas Gerais tem de melhor — cachaças artesanais, queijos de minas em todas as curas imagináveis, doces, temperos, louças de barro e uma movimentação humana que não distingue turista de morador, manhã de sábado de terça de feriado. Todo mundo está ali com a mesma disposição: comer, conversar, comprar alguma coisa que não estava planejada.


"O Mercado Central não é um atrativo turístico que sobreviveu. É uma instituição viva que o turismo, descobriu."

Essa distinção é central. O Mercado não foi fabricado para consumo externo. O Mercado preexiste à lógica do turismo gastronômico e a ela resiste. Os feirantes têm história e especialidade.


Antes disso, porém, há a forma. BH ocupa uma bacia topográfica — uma depressão intermontana circundada pela Serra do Curral ao sul e por outras elevações ao redor, que criam uma área central mais baixa envolto por terrenos mais altos. Vista de cima, da Praça do Papa ou de qualquer mirante que dê para o centro, a cidade tem a geometria de um anfiteatro natural: a serra como arquibancada, a malha urbana como palco. Esse acidente geográfico não é detalhe — ele define a relação da cidade com o céu, com o calor, com a neblina que desce nas manhãs de inverno e com a sensação persistente de que você está dentro de alguma coisa e não apenas sobre ela.


A Serra do Curral, que define o horizonte sul de BH e é parte indissociável da sua identidade visual. Já foi alvo de pressão minerária por décadas, e parte de sua silhueta carrega as marcas dessa disputa. Em cidades vizinhas como Itabira, o processo foi mais radical: serras inteiras escavadas até virar cratera. Em BH, a serra resistiu — por ora.


BH tem outras camadas igualmente generosas. A vida nos bairros — Savassi, Santa Tereza, Floresta — mantém uma escala humana que grandes metrópoles brasileiras perderam há décadas. Os botecos são, nesse sentido, uma arquitetura social: espaços que organizam o tempo coletivo com uma eficiência que nenhum planejamento urbano consegue decretar. A cidade tem problemas reais — transporte, desigualdade territorial, a lagoa da Pampulha que o título de Patrimônio da Humanidade não foi suficiente para proteger. Mas esses problemas não apagam o que funciona, e o que funciona em BH funciona com uma consistência rara.


Veredicto: Belo Horizonte é uma das cidades brasileiras que mais recompensa quem presta atenção. Não na velocidade do espetáculo, mas na cadência do cotidiano — no balcão do mercado, na mesa do boteco, na conversa que ninguém planejou ter. Vale a visita. Vale a repetição.



 
 
 

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