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arquitetura, arte e suas implicações na sociedade

COLUNA

por Jéssica Barretto

Desvios

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SUPERKILEN: a vitrine que chamamos de praça

  • 28 de mai. de 2023
  • 3 min de leitura

Escrito por Jéssica Barretto e traduzido por Jéssica Barretto 13 de Dezembro de 2021










Em Nørrebro, bairro de Copenhagen marcado pela diversidade étnica e por um histórico de tensões sociais agudas, existe uma praça pavimentada de vermelho onde, junto ao chão, uma placa de aço identifica cada banco, cada parquinho, cada luminária: de onde veio, o que é, em dinamarquês e na língua de origem. Há um touro de estrada espanhol. Há um banco de balanço de Bagdá. Há, segundo o próprio material de divulgação do projeto, "o solo da Palestina". Cento e oito objetos, onze árvores, sessenta nacionalidades representadas em um único espaço público de 27 mil metros quadrados.

O Superkilen, projeto de 2012 do escritório BIG em parceria com Topotek 1 e Superflex, é hoje uma das obras mais citadas da arquitetura urbana contemporânea, e por um motivo legítimo: poucos projetos levaram tão a sério a ideia de que um espaço público deveria refletir quem o habita, não apenas quem o projeta. O processo incluiu consulta aos moradores sobre que objetos de seus países de origem gostariam de ver representados ali. É um gesto raro, e seria desonesto não reconhecê-lo.


A diferença entre participação e curadoria é onde essa história costuma parar de ser contada. Os moradores de Nørrebro foram consultados sobre quais objetos gostariam de ver, mas a decisão de organizar esses objetos numa "espécie de coleção surrealista da diversidade urbana global", como o próprio material do projeto descreve, e de dispô-los lado a lado como peças de um museu a céu aberto, não foi deles. Foi do escritório. Há uma distância entre "perguntar o que vocês gostariam de ver representado" e "decidir que a melhor forma de representar vocês é colocando o objeto que vocês escolheram ao lado de um touro publicitário espanhol e de uma referência à Palestina, todos catalogados com placas de identificação, como espécimes". A primeira é escuta. A segunda é composição, e composição tem autoria, tem ponto de vista, tem alguém que decide o que significa o conjunto.


Esta revista já fez essa distinção em outro contexto. Na entrevista com o arquiteto Alexandre Salles, publicada em abril, ele descreve o limite entre diálogo cultural e apropriação como uma questão de método: "a apropriação estética ocorre quando símbolos, práticas e saberes são deslocados de seus contextos históricos e transformados em imagem consumível, esvaziada de complexidade". O Superkilen não desloca símbolos de comunidades distantes e desconhecidas, como costuma ocorrer nos casos mais óbvios de apropriação. Ele desloca os símbolos das próprias comunidades que habitam o entorno, o que é, ao mesmo tempo, mais democrático na origem e mais ambíguo no resultado. Os moradores reconhecem os objetos. A pergunta é se eles reconhecem a si mesmos no conjunto que esses objetos formam quando organizados por outra pessoa, sob um conceito que não foi deles.


Há também uma camada que costuma ficar de fora dessas leituras, e que talvez seja a mais reveladora: o Superkilen tornou-se, nos anos seguintes à sua inauguração, um destino turístico. Visitantes de todo o mundo vão até lá para fotografar a praça vermelha e os objetos com suas placas explicativas, como se fosse, de fato, um museu. Um espaço concebido para servir a uma comunidade real, com tensões reais, tornou-se também um cenário para quem não mora ali. Isso não anula o valor do projeto para Nørrebro, mas levanta a mesma questão que esta revista fez ao tratar da Inteligência Artificial no urbanismo: quando um território passa a ser consumido visualmente por quem está de fora dele, quem ainda controla o sentido do que aquele território representa?


Não há, neste texto, uma negação do que o Superkilen conquistou. O prêmio do AIA, a repercussão internacional, o gesto de consulta aos moradores: tudo isso é real e tudo isso importa. Mas reconhecimento não é o mesmo que veredicto fechado. O Superkilen é, antes de qualquer coisa, um experimento ainda em curso sobre até que ponto um espaço público pode pertencer simultaneamente a quem mora ali e a quem vem de fora para vê-lo funcionar. Onze anos depois de inaugurado, talvez a pergunta mais honesta não seja se o projeto deu certo, mas para quem.



Como citar: BARRETTO, Jéssica. SUPERKILEN: a vitrine que chamamos de praça. SAA Revista, 2026. Disponível em: https://www.saarevista.com.br/post/superkilen. Acesso em: (data).



Jéssica Barretto é Arquiteta e Urbanista, head criativo e executivo do JBARQ+ Arquitetos. Fundadora da S.A.A Revista, onde atua como Publisher, Editora -chefe e Colunista. Em seu tempo livre você pode encontrá-la em alguma prainha erma ou apreciando um chá em meio à natureza. Ou dançando.

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