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LEIA, PENSE E QUESTIONE

arquitetura, arte e suas implicações na sociedade

COLUNA

por Jéssica Barretto

Desvios

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Tebas e o tempo que a cidade leva para dizer um nome

Atualizado: 6 de jul.


Em 2018, o Sindicato dos Arquitetos no Estado de São Paulo reconheceu oficialmente Joaquim Pinto de Oliveira, o Tebas, como arquiteto e urbanista. Ele havia talhado as pedras de algumas das fachadas mais importantes do centro da cidade, no século XVIII. O reconhecimento veio duzentos e sete anos depois de sua morte. Durante esse tempo, sua autoria foi questionada, atribuída a outros, ou simplesmente ignorada.


Toda decisão sobre espaço, forma e imagem carrega, silenciosa ou explicitamente, uma resposta a três perguntas: para quem isso foi feito, quem está excluído, e quais valores estão sendo materializados. As fachadas talhadas por Tebas respondem a essas três perguntas com uma clareza que nenhuma placa de reconhecimento tardio consegue suavizar. Foram feitas por um homem a quem a cidade negaria, por dois séculos, o crédito de tê-las feito. Sustentaram o valor simbólico de um centro histórico que nunca precisou dizer o nome de quem o esculpiu. E materializaram, com uma precisão que o tempo não apaga, o valor exato que uma sociedade escravista atribuía ao trabalho manual de um homem negro: todo o resultado, nenhuma autoria.


O deslocamento que importa aqui não é celebrar que o nome de Tebas finalmente apareceu numa ata sindical. É perguntar por que levou duzentos e sete anos — e o que essa demora revela sobre como a autoria continua sendo distribuída na arquitetura brasileira, então e agora.


Porque a pergunta não envelheceu. Ela só trocou de roupa. Escritórios de arquitetura no Brasil seguem sendo, na sua imensa maioria, assinados por nomes brancos, mesmo quando a mão de obra que executa, calcula estrutura e resolve o canteiro é majoritariamente negra. Aplicada a esse cenário, a mesma pergunta continua incômoda: para quem o projeto foi feito, quem está excluído da assinatura, e que valores um escritório materializa quando o crédito para no arquiteto e nunca chega ao mestre de obras. A diferença entre Tebas e um mestre de obras contemporâneo é de grau, não de espécie. O trabalho técnico que sustenta a arquitetura segue invisível no crédito, ainda que plenamente visível no resultado construído.


O apagamento de Tebas não foi um esquecimento passivo. Foi funcional. Atribuir a autoria daquelas fachadas a outros nomes, ou a nenhum nome, ao "estilo colonial" genérico, permitiu que o valor simbólico e econômico daquele patrimônio circulasse sem a obrigação de reconhecer quem o produziu. Reconhecer Tebas em 1811, no ano de sua morte, teria significado admitir que um homem escravizado dominava geometria, cálculo de carga e talhe de pedra com precisão suficiente para definir a paisagem construída da maior cidade do país. Isso era inconveniente demais para ser dito em voz alta naquele momento. Segue inconveniente hoje, só que por outro motivo: admitir a mecânica da exclusão exigiria mudar, agora, quem recebe crédito, quem assina o projeto, quem é chamado para a entrevista.


O sindicato que reconheceu Tebas em 2018 fez o gesto correto. Mas um gesto de reparação simbólica, cento e noventa anos depois de qualquer possibilidade de reparação material, tem um limite estrutural: repara a história sem alterar o presente. A pergunta que a trajetória de Tebas coloca — quem constrói, quem assina, quem lucra com a diferença entre os dois — segue sem resposta nos escritórios que operam hoje, com os mesmos mecanismos de invisibilização, apenas com vocabulário mais educado.


Como citar: BARRETTO, Jéssica. SOCIEDADE, ARQUITETURA E ARTE: a pergunta que esta revista faz. SAA Revista, 2026. Disponível em: https://www.saarevista.com.br/post/sociedade-arquitetura-e-arte. Acesso em: (data).

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